A teologia socrática

E qual era a concepção de Deus que Sócrates ensinava, a ponto de oferecer a seus inimigos o pretexto para condená-lo à morte, já que era contrária aos “deuses em que a cidade acredi­tava”? Era a concepção indiretamente preparada pelos filósofos naturalistas, culminando no pensamento de Anaxágoras e de Diógenes de Apolônia: o Deus-inteligência ordenadora. Sócrates, porém, desligou essa concepção dos pressupostos próprios desses filósofos (sobretudo de Diógenes), “des-fisicizando-a” e deslocando- a para um plano afastado o mais possível dos pressupostos próprios da “filosofia da natureza” anterior.

Sobre esse tema, pouco sabemos através de Platão, ao passo que Xenofonte nos informa amplamente. Eis o raciocínio registra­do nos Memorabilia, que constitui a primeira prova racional da existência de Deus que chegou até nós e que iria constituir a base de todas as provas posteriores: a) Aquilo que não é simples obra do acaso, sendo constituído para alcançar um objetivo e um fim, pressupõe uma inteligência que o produziu por razões evidentes. Ademais, observando o homem, em especial, notamos que cada um e todos os seus órgãos estão constituídos de tal modo que não podem ser absolutamente explicáveis como obra do acaso, mas apenas como obra de uma inteligência que idealizou expressamente essa constituição, b) Contra esse argumento, poder-se-ia objetar que, ao contrário dos artífices terrenos, que podem ser vistos ao lado de suas obras, essa Inteligência não pode ser vista. Mas Sócrates observa que essa objeção não procede, porque a nossa alma (= inteligência) também não pode ser vista e, mesmo assim, ninguém ousa afirmar que, pelo fato de a alma (= inteligência) não ser vista, também não existe e que nós fazemos por acaso tudo o que fazemos,

c) Por fim, segundo Sócrates, é possível estabelecer, com base nos privilégios que o homem tem em relação a todos os outros seres (como, por exemplo, a estrutura física mais perfeita e, sobretudo, a posse de alma e de inteligência), que o artífice divino cuidou do homem de um modo inteiramente particular.

Como se vê, o argumento gira em tomo deste núcleo central: o mundo e o homem são constituídos de tal modo (ordem, finali­dade) que só uma causa adequada (ordenadora, finalizante e, portanto, inteligente) pode explicá-los. E, com sua ironia, Sócrates lembrava àqueles que rejeitavam esse raciocínio que nós pos­suímos uma parte de todos os elementos que estão presentes em grandes massas no universo, coisa que ninguém ousa negar: como então poderíamos pretender que nós, homens, nos assenhoreamos de toda a inteligência que existe, não podendo haver nenhuma ou­tra inteligência fora de nós? E evidente a incongruência lógica des­sa pretensão.

O Deus de Sócrates, portanto, é a inteligência, que conhece todas as coisas sem exceção e é atividade ordenadora e providência. E uma providência, porém, que se ocupa com o mundo e os homens em geral, como também do homem virtuoso em particular (para a mentalidade antiga, o semelhante tem comunhão com o seme­lhante, razão pela qual Deus tem uma comunhão estrutural com o bom), mas não com o homem individualmente enquanto tal (a menos que se trate de homem mau). Somente no pensamento cristão é que surgiria uma providência que se ocupa com o in­divíduo enquanto tal.

O “daimonion” socrático

Entre as acusações contra Sócrates estava também a de que era culpado “de introduzir novos daimónia”, novas entidades divinas. Em sua Apologia, Sócrates diz o seguinte a propósito da questão: “A razão (…) é aquela que muitas vezes e em diversas circunstâncias ouvistes dizer, ou seja, que em mim se verifica algo de divino e demoníaco, precisamente aquilo que Melito (o acusa­dor), jocosamente, escreveu no seu ato de acusação: é como uma voz que se faz ouvir dentro de mim desde quando era menino e que, quando se faz ouvir, sempre me detém de fazer aquilo que estou a ponto de fazer, mas que nunca me exorta a fazer.” Portanto, o daimonion socrático era “uma voz divina” que lhe vetava deter­minadas coisas: ele o interpretava como nma espécie de sortilégio, que o salvou várias vezes dos perigos ou de experiências negativas.

  Os estudiosos ficaram muito perplexo diante desse daimonion. E as exegeses que dele foram propostas são as mais díspares. Alguns pensaram que Sócrates estivesse ironizando, outros fala­ram de voz da consciência, outros do sentimento que perpassa o gênio. E até se poderia incomodar a psiquiatria para entender a “voz divina” como fato patológico ou então chamar à cena as categorias da psicanálise. Mas é claro que, assim fazendo, estamos caindo no arbítrio.

Se quisermos nos limitar aos fatos, devemos raciocinar como segue.

Em primeiro lugar, deve-se destacar que o daimonion não tem nada a ver com o campo das verdades filosóficas. Com efeito, a “voz divina” interior não revela em absoluto a Sócrates a “sabe­doria humana” de que ele é portador, nem qualquer das propostas gerais ou particulares de sua ética. Para Sócrates, os princípios filosóficos extraem sua validade do logos e não da divina revelação.

    Em segundo lugar, Sócrates não relacionou com o daimonion nem mesmo a sua opção moral de fundo, que, no entanto, ele considera provir de uma ordem divina: “Cabe-me fazer isto (fazer filosofia e exortar os homens a cuidarem da alma) porque fui ordenado por Deus, com vaticínios e sonhos, em suma, com qual­quer daqueles modos pelos quais a sorte divina ordena, por vezes, o homem a fazer alguma coisa.” Já o daimonion não lhe “ordenava”, mas lhe “vetava”.

Excluídos os campos da filosofia e da opção ética de fundo, resta apenas o campo dos eventos e ações particulares. E é exata­mente a esse campo que se referem todos os textos à disposição sobre o daimonion socrático. Trata-se, portanto, de um fato que diz respeito ao indivíduo Sócrates e aos acontecimentos particulares de sua existência: era um “sinal” que, como dissemos, o impedia de fazer coisas particulares que lhe teriam acarretado prejuízos. A coisa da qual o afastou mais firmemente foi a participação ativa na vida política, sobre o que ele diz: “Vós o sabeis bem, atenienses, que, se há tempos eu me houvesse metido a ocupar-me dos negócios do Estado (coisa da qual o demônio me afasta), há tempos eu já estaria morto e não teria feito nada de útil, nem para vós nem para mim.”

    Em suma, o daimonion é algo que diz respeito à excepcional personalidade de Sócrates, devendo ser colocado no mesmo plano de certos momentos de concentração muito intensa, bastante próximos aos arrebatamentos de êxtase em que Sócrates mergu­lhava algumas vezes e que duravam longamente, coisa da qual nossas fontes falam expressamente. Portanto, o daimonion não deve ser relacionado com o pensamento e a filosofia de Sócrates: ele próprio manteve as duas coisas distintas e separadas—e o mesmo deve fazer o intérprete.

A revolução da “não-violência”

Muitíssimo se discutiu sobre as razões que levaram à conde­nação de Sócrates. Do ponto de vista jurídico, está claro que procediam os crimes que lhe foram imputados. Ele “não acreditava nos deuses da cidade” porque acreditava num Deus superior e “corrompia os jovens” porque lhes ensinava essa doutrina. En­tretanto, depois de se ter defendido corajosamente no tribunal, tentando demonstrar que estava com a verdade, mas não tendo conseguido convencer os juízes, aceitou a condenação e recusou-se a fugir do cárcere, apesar dos amigos terem organizado tudo para a sua fuga. As suas motivações eram exemplares: a fuga teria significado uma violação do veredito e, portanto, violação da lei. A verdadeira arma de que o homem dispõe é a sua razão e, portanto, a persuasão. Se, fazendo uso da razão, o homem não consegue alcançar seus objetivos com a persuasão, então deve se conformar, porque, como tal, a violência é tuna coisa ímpia. Como Platão coloca na boca de Sócrates: “Não se deve desertar, nem retirar-se, nem abandonar o seu posto, mas sim, na guerra, no tribunal e em qualquer lugar, é preciso fazer aquilo que a pátria e a cidade ordenam ou então persuadi-las em que consiste a justiça, ao passo que fazer uso da violência é coisa ímpia”. E Xenofonte escre­ve: “Preferiu morrer, permanecendo fiel à lei, do que viver vio­lando-a”.

   Ao dotar Atenas de leis, Sólon já havia proclamado em alta voz: “Não quero valer-me da violência das tiranias”, mas sim da justiça. E um estudioso observou oportunamente o seguinte: “Na Ática dos primeiros séculos, o fato de que nenhum homem em cujas mãos o destino colocou o poder tenha deixado de exercê-lo nem a ele renunciado por amor à justiça é algo que teve consequências incalculáveis para a vida jurídica e política da Grécia e da Europa” (B. Snell). Mas a posição assumida por Sócrates foi ainda mais importante. Com ele, além de ser explicitamente teorizada, a concepção da revolução da não-violência foi demonstrada inclusive com sua própria morte, sendo desse modo transformada em uma “conquista para sempre”. Ainda recentemente, Martin Luther King, o líder negro norte-americano da revolução não-violenta, baseava-se nos princípios socráticos, além dos cristãos.

O novo conceito de felicidade

Precisamente a partir de Sócrates, a maior parte dos filósofos gregos passou a apresentar suas mensagens ao mundo como men­sagens de felicidade. Em grego, “felicidade” se diz “eudaimonía”, que, originalmente, significava ter tido a sorte de possuir um demônio-guardião bom e favorável, que garantia uma boa sorte e uma vida próspera e agradável. Mas os pré-socráticos já haviam interiorizado esse conceito: Heráclito escrevia que “o caráter moral é o verdadeiro demônio do homem” e que “a felicidade é bem diferente dos prazeres”, ao passo que Demócrito dizia que “não se tem a felicidade nos bens exteriores” e que “a alma é a morada de nossa sorte”.

  Com base nas premissas que ilustramos, o discurso de Sócrates aprofunda e fundamenta do modo sistemático precisa­mente e esses conceitos. A felicidade não pode vir das coisas exterio­res, do corpo, mas somente da alma, porque esta e só esta é a sua essência. E a alma é feliz quando é ordenada, ou seja, virtuosa. Diz Sócrates: “Para mim, quem é virtuoso, seja homem ou mulher, é feliz, ao passo que o injusto e malvado é infeliz”. Assim como a doença e a dor física são desordem do corpo, a saúde da alma é ordem da alma — e essa ordem espiritual ou harmonia interior é a felicidade.

  Sendo assim, segundo Sócrates, o homem virtuoso entendido nesse sentido “não pode sofrer nenhum mal, nem na vida, nem na morte”. Nem na vida, porque os outros podem danificar-lhe os haveres ou o corpo, mas não arruinar-lhe a harmonia interior e a ordem da alma. Nem na morte, porque, se existe um além, o virtuoso será premiado; se não existe, ele já viveu bem no aquém, ao passo que o além é como um ser no nada. De qualquer forma, Sócrates tinha a firme convicção de que a virtude já tem o seu prêmio intrinsecamente, em si mesma, isto é, essencialmente: assim, vale a pena ser virtuoso, porque a própria virtude já cons­titui um fim. E, sendo assim, para Sócrates, o homem pode ser feliz nesta vida, quaisquer que sejam as circunstâncias em que lhe cabe viver e qualquer que seja a situação no além. O homem é o verdadeiro artífice de sua própria felicidade ou infelicidade.

A descoberta socrática do conceito de liberdade

 A mais significativa manifestação da excelência da psyché ou razão humana se dá naquilo que Sócrates denominou de “autodomínio” (enkráteia), ou seja, do domínio de si mesmo nos estados de prazer, dor e cansaço, no urgir das paixões e dos impulsos: “Considerando o autodomínio como a base da virtude, cada homem deveria procurar tê-lo.” Substancialmente, o auto­domínio significa domínio de sua racionalidade sobre a sua própria animalidade, significa tomar a alma senhora do corpo e dos instintos ligados ao corpo. Consequentemente, pode-se compre­ender perfeitamente que Sócrates tenha identificado expressa­mente a liberdade humana com esse domínio da racionalidade sobre a animalidade. O verdadeiro homem livre é aquele que sabe dominar os seus instintos, o verdadeiro homem escravo é aquele que, não sabendo dominar seus instintos, toma-se vítima deles.

   Estreitamente ligado a esse conceito de autodomínio e de liberdade encontra-se o conceito de “autarquia”, isto é, de “auto­nomia”. Deus não tem necessidade de nada. E o sábio é aquele que mais se aproxima desse estado, sendo portanto aquele que procura ter necessidade apenas de muito pouco. Com efeito, para o sábio que vence os instintos e elimina todas as coisas supérfluas, basta a razão para que viva feliz.

    Como foi justamente ressaltado, estamos aqui diante de uma nova concepção de herói. O herói, tradicionalmente, era aquele que é capaz de vencer todos os inimigos, os perigos, as adversidades e o cansaço externos. Já o novo herói é aquele que sabe vencer os inimigos interiores: “Somente o sábio, que esmagou os monstros selvagens das paixões que se lhe agitam no peito, é verdadeira­mente suficiente a si mesmo: ele se aproxima ao máximo da divindade, do ser que não tem necessidade de nada” (W. Jaeger).

Os paradoxos da ética socrática

A tese socrática que apresentamos implicava duas consequências, que foram consideradas muito mais como “paradoxos”, mas que são muito importantes e devem ser oportunamente clarificadas: 1) A virtude (cada uma e todas as virtudes, sabedoria, justiça, fortaleza, temperança) é ciência (conhecimento) e o vício (cada um e todos os vícios) é ignorância. 2) Ninguém peca volun­tariamente: quem faz o mal, fá-lo por ignorância do bem. Essas duas proposições resumem tudo o que foi denominado “intelectua­lismo socrático”, enquanto reduzem o bem moral a um dado de conhecimento, de modo a considerar impossível conhecer o bem e não fazê-lo. O intelectualismo socrático influenciou todo o pensamento dos gregos, a ponto de tomar-se quase um mínimo denominador comum de todos os sistemas, seja na época clássica, seja na época helenística. Entretanto, malgrado o seu excesso, as duas proposições enunciadas contêm algumas instâncias muito importantes.

1) Em primeiro lugar, cabe destacar a forte carga sintética da primeira proposição. Com efeito, a opinião corrente entre os gregos antes de Sócrates (inclusive a dos sofistas, que, no entanto, pretendiam ser “mestres da virtude”) considerava as diversas virtudes como uma pluralidade (uma coisa é a “justiça”, outra a “santidade”, outra a “prudência”, outra a “temperança”, outra a “sabedoria”), mas da qual não sabiam captar o nexo essencial, ou seja, aquele algo que faz com que as diversas virtudes sejam uma unidade (algo que faça precisamente com que todas e cada uma delas sejam “virtudes”). Além disso, todos viam as diversas virtu­des como coisas fundadas nos hábitos, no costume e nas convenções aceitas pela sociedade. Sócrates, no entanto, tenta submeter a vida humana e os seus valores ao domínio da razão (assim como os naturalistas haviam tentado submeter o cosmos e suas manifes­tações ao domínio da razão). E como, para ele, a própria natureza do homem é a sua alma, ou seja, a razão, e as virtudes são aquilo que aperfeiçoa e concretiza plenamente a natureza do homem, ou seja, a razão, então é evidente que as virtudes revelam-se como tuna forma de ciência e de conhecimento, precisamente porque são a ciência e o conhecimento que aperfeiçoam a alma e a razão, como já dissemos.

2) Mais complexas são as razões que estão na base do segundo paradoxo. Sócrates, porém, viu muito bem que o homem, por sua natureza, procura sempre o seu próprio bem e que, quando faz o mal, na realidade não o faz porque se trate do mal, mas porque daí espera extrair um bem. Dizer que o mal é “involuntário” significa que o homem se engana ao esperar um bem dele e que, na realidade, está cometendo um erro de cálculo e, portanto, se enganando. Ou seja, em última análise, é vítima de “ignorância”.

Ora, Sócrates tem perfeitamente razão quando diz que o conhecimento é condição necessária para fazer o bem (porque, se não conhecemos o bem, não podemos fazê-lo), mas está enganado ao considerar que, além de condição necessária, ela também é condição suficiente. Em suma, Sócrates cai numa espécie de racionalismo. Com efeito, para fazer o bem também é necessário o concurso da “vontade”. Mas os filósofos gregos não detiveram sua atenção na “vontade”, que iria se tornar central e essencial na ética dos cristãos. Para Sócrates, em conclusão, é impossível dizer “vejo e aprovo o melhor, mas no agir me atenho ao pior”, porque quem vê o melhor necessariamente também o faz. Em consequência, para Sócrates, como para quase todos os filósofos gregos, o pecado se reduz a um “erro de cálculo”, a um “erro de razão”, precisamente à “ignorância” do verdadeiro bem.

A descoberta da essência do homem

A mais significativa manifestação da excelência da psyché ou razão humana se dá naquilo que Sócrates denominou de “autodomínio” (enkráteia), ou seja, do domínio de si mesmo nos estados de prazer, dor e cansaço, no urgir das paixões e dos impulsos: “Considerando o autodomínio como a base da virtude, cada homem deveria procurar tê-lo.” Substancialmente, o auto­domínio significa domínio de sua racionalidade sobre a sua própria animalidade, significa tomar a alma senhora do corpo e dos instintos ligados ao corpo. Consequentemente, pode-se compre­ender perfeitamente que Sócrates tenha identificado expressa­mente a liberdade humana com esse domínio da racionalidade sobre a animalidade. O verdadeiro homem livre é aquele que sabe dominar os seus instintos, o verdadeiro homem escravo é aquele que, não sabendo dominar seus instintos, toma-se vítima deles.

Estreitamente ligado a esse conceito de autodomínio e de liberdade encontra-se o conceito de “autarquia”, isto é, de “auto­nomia”. Deus não tem necessidade de nada. E o sábio é aquele que mais se aproxima desse estado, sendo portanto aquele que procura ter necessidade apenas de muito pouco. Com efeito, para o sábio que vence os instintos e elimina todas as coisas supérfluas, basta a razão para que viva feliz.

Como foi justamente ressaltado, estamos aqui diante de uma nova concepção de herói. O herói, tradicionalmente, era aquele que é capaz de vencer todos os inimigos, os perigos, as adversidades e o cansaço externos. Já o novo herói é aquele que sabe vencer os inimigos interiores: “Somente o sábio, que esmagou os monstros selvagens das paixões que se lhe agitam no peito, é verdadeira­mente suficiente a si mesmo: ele se aproxima ao máximo da divindade, do ser que não tem necessidade de nada” (W. Jaeger).

O novo significado de virtude e o novo quadro de valores

Em grego, aquilo que nós hoje chamamos “virtude” se diz “areté”, como já acenamos, significando aquilo que toma uma coisa boa e perfeita naquilo que é, ou, melhor ainda, significa aquela atividade ou modo de ser que aperfeiçoa cada coisa, fazendo-a ser aquilo que deve ser. (Os gregos, portanto, falavam de virtude dos vários instrumentos, de virtude dos animais etc. Por exemplo: a “virtude” do cão é a de ser um bom guardião, a do cavalo é a de correr velozmente e assim por diante.) Consequentemente, a “virtude” do Intelectualismo ético.

O homem outra não pode ser senão aquilo que faz com que a alma seja tal como a sua natureza determina que seja, ou seja, boa e perfeita. E, segundo Sócrates, esse elemento é a “ciência” ou o “conheci­mento”, ao passo que o “vício” seria a privação de ciência ou conhecimento, vale dizer, a “ignorância”.

    Desse modo, Sócrates opera uma revolução no tradicional quadro de valores. Os verdadeiros valores não são aqueles ligados às coisas exteriores, como a riqueza, o poder, a fama, e tampouco os ligados ao corpo, como a vida, o vigor, a saúde física e a beleza, mas somente os valores da alma, que se resumem, todos, no “conhecimento”. Naturalmente, isso não significa que todos os valores tradicionais tomam-se desse modo “desvalores”; significa, simplesmente, que “em si mesmos, não têm valor”. Eles só se tomam ou não valores se forem usados como o “conhecimento” exige, òu seja, em função da alma e de sua “areté”.

   Em resumo: riqueza, poder, fama, saúde, beleza e semelhan­tes “(…) ao que me parece, por sua natureza, não podem ser chamados de bens em si mesmos. A proposição é outra: dirigidos pela ignorância, revelam-se males maiores do que os seus contrários, porque mais capazes de servir a uma má direção; se, no entanto, são governados pelo juízo e pela ciência ou conhecimento, são bens maiores; em si mesmos, nem uns nem outros têm valor”.

Apologia de Sócrates Platão

Personagens:


Sócrates
Meletus, o acusador
Arauto
Epistatês (Presidente do conselho e da assembléia)
Dikasta 1 (membro do corpo de jurados)
Dikasta 2
Dikasta 3
Discípulo
Carrasco

Cenário: Colunas gregas (projetadas ou pintadas em pano de fundo) e púlpitos para o epistatês e conselheiros. Banco para o acusado.

O arauto bate o cajado no chão e dá início a sessão.

Arauto:
Digníssimo Epistatês e membros desta Dikasteria: Meletus, o poeta vem a vossa presença apresentar, libelo contra Sócrates, filho de Sofrônico, escultor, e de Fenáreta, parteira, o qual acusa – juntamente com Anito e Licon – de desrespeito aos deuses, violar as leis e a tradição e corromper a juventude ateniense. Como sabeis vós, é deste Conselho a prerrogativa de deliberar sobre a natureza dessa acusação, bem como a justa punição, se culpado for assim considerado o acusado.

Que entrem acusador e acusado, e que os desígnios divinos favoreçam aquele que estiver com a verdade. 

Meletus e Sócrates entram simultaneamente, um de cada lado do palco.

Epistatês:
Meletus, cidadão de Atenas, que razões tu apresentas para trazer Sócrates diante desta Dikasteria?

Meletus
Digníssimos conselheiros, é público e notório que este cidadão, valendo-se de sua ascendência sobre os jovens de Atenas, há muito os incita a questionar nossos costumes e nossas tradições, a duvidar de nossos deuses em favor daquilo que ele próprio acredita como sendo a verdade e a essência das coisas. Este homem, cidadãos, a quem muitos atribuem uma sabedoria divina é, na verdade, um blasfemador, cujo único propósito é semear a discórdia e a desordem, pondo em risco os pilares onde se assentam a glória e a prosperidade de Atenas. Este homem, dito o sábio dos sábios, é um traidor! E para tal delito, não peço menos que a pena de morte.

Epistatês
Que dizes tu, filho de Sofrônico? Dize-nos algo que possa refutar tais considerações, como prescreve a Lei.

Dikasta 1
Sim, responde-nos, ó sábio dos sábios, mas cuidado com tuas palavras. Já viste onde elas podem levar-te.

Sócrates
Ora, cidadãos… Como pode um único homem se arvorar em sábio, contrariando o pensamento de muitos? Como ele pode contrariar todo o peso de nossas tradições, a forma como educamos e preparamos nossos jovens para o exercício da cidadania e a continuação de nosso modo de vida? Como pode esse suposto sábio contrariar a vontade dos deuses? Eu nada sei, na verdade. Imputam a mim uma sabedoria que não possuo, apenas por que minhas perguntas não encontram respostas satisfatórias vindas de vós.

Meletus
Eu vos digo veneráveis membros deste Conselho, esse homem é um perigo para a Atenas. Oculto nesse jogo de perguntas, seu pensamento instiga a indisciplina e a desordem nas jovens mentes atenienses. Seus questionamentos fazem nossos jovens duvidarem de tudo que já existe, na frívola busca daquilo que considera como sendo a verdade.

Sócrates
Que sabes tu da verdade, ó poeta? Aquela baseada em sofismas? Tua verdade se traduz em falácias proferidas como argumentos de uma retórica destinada a sufocar as vozes discordantes. Tua verdade atende aos teus interesses e os daqueles que te são iguais e nada mais.

Meletus
Ouçam cidadãos, o instrumento do mal, subversor da juventude, que não acredita nos deuses e inventa as próprias divindades.

Dikasta 2
Afirmas então, Sócrates, que nossas tradições, crenças religiosas e costumes não são adequados ao desenvolvimento intelectual dos cidadãos gregos?

Sócrates
Digo-vos apenas que aquilo que dizem os sofistas nada acrescenta ao espírito da juventude, pois sua retórica faz o erro e a mentira valerem tanto quanto a verdade. Ao valer-se de falsos argumentos atribuem a si mesmos a qualidade de portadores da vontade dos deuses, quando o que dizem favorece apenas aquilo que a eles interessa.

Dikasta 3
Como então, ó sábio, dizes que vivemos num mundo de mentiras? E é isso que ensinamos aos nossos jovens?

Sócrates
Ora, o que é ensinado a juventude grega? Os sofistas apresentam-se como mestres da oratória, e afirmam ser possível ensinar tal arte aos jovens para que se tornem bons cidadãos. No que consiste tal arte? A arte da persuasão, eu vos digo. Assim, os jovens aprendem a defender uma opinião, e depois a contradizê-la com outros argumentos, se assim lhes for oportuno. Não lhes é ensinado o compromisso com a verdade, mas apenas a ambição de ganhar uma discussão a qualquer custo. Longe de desenvolver as jovens mentes gregas, essa prática apenas corrompe e afronta seu espírito, sob os auspícios daquilo que supostamente dizem os deuses.

Meletus
Percebem os sentidos de suas palavras deste homem, cidadãos? O sábio renega até o que os oráculos dizem da vontade dos deuses.

Sócrates
Ora! A vontade dos deuses! Como posso ser culpado de desrespeitar os desígnios divinos, se a eles me reporto em tudo o que faço? Estou persuadido de que não há para vós maior bem na cidade que esta minha obediência aos deuses. Na verdade, não é outra coisa o que faço nestas minhas andanças a não ser persuadir a vós, jovens e velhos, de que não deveis cuidar só do corpo, nem exclusivamente das riquezas, e nem de qualquer outra coisa antes e mais fortemente que da alma, de modo que ela se aperfeiçoe sempre, pois não é do acúmulo de riquezas que nasce a virtude, mas do aperfeiçoamento da alma é que nasce tudo o que mais importa ao homem e ao Estado.

Meletus
Ouviram cidadãos? O sábio reprova até aqueles que buscam a prosperidade. Talvez devêssemos renegar tudo o que construímos e toda a história de Atenas para alcançarmos seus ideais virtuosos. Talvez até, devêssemos renunciar a própria natureza do homem para satisfazê-lo.

Sócrates
A natureza do homem? Tocas num ponto muito interessante, ó poeta. Talvez possa nos dizer o que é o homem?

Meletus
Vós que sabeis tudo, não o sabes?

Sócrates
Eu nada sei. Por isso vos perguntei. Acaso julga que é o homem aquilo que vedes? Por isso vós dais tanto valor às coisas.

Epistatês
Falais por enigma, filho de Sofrônico, acaso zombais desta assembléia?

Arauto
Cuidado, sábio! Por que insistes em trilhar esse caminho temerário?

Sócrates
Julgam que zombo de vós quando apenas quero partilhar daquilo que penso. Uma coisa é o instrumento que se usa e a outra é o sujeito que usa o instrumento. Ora, o homem usa o seu corpo como instrumento, o que significa que a essência humana utiliza o instrumento, que é o corpo, não sendo, pois, o próprio corpo. Assim, à pergunta “o que é o homem?”, não seria lógico responder que é o seu corpo, mas sim que é “aquilo que se serve do corpo”, que é a psyché, a alma, a essência humana?

Dikasta 1
Falais do homem como semelhante aos deuses.

Dikasta 2
Blasfêmia!

Dikasta 3
Não há limites para vossa arrogância?

Arauto
Pobre Sócrates! Estais aqui para defender-vos das acusações, mas insistes em vossas idéias absurdas. Isso será a vossa ruína, não sabeis?

Epistatês
Foste acusado de traidor, de corromperdes a juventude, zombardes dos deuses e de nossas tradições. Estais aqui para defender-vos dessas acusações. Pois, se defendais, ou sofre as conseqüências de vossos atos.

Sócrates
Cidadãos de Atenas, como eu posso defender-me se não reconheço tais acusações? Reconhecê-las Seria trair meu espírito e renegar minhas convicções. Aqueles que me acusam servem-se daquilo que deploro: o jogo de palavras vazias, sem nenhum sentido de verdade. Combatem minhas idéias, mas não o fazem com argumentos próprios. Usam de artimanhas e subterfúgios vis para calar minha voz, pois é o que realmente temem. Eles não querem a verdade porque ela não lhes serve. Não querem que se mude o modo de pensar porque algo lhes pode ser subtraído.
Reconhecer tais acusações, ilustres membros desta dikasteria, implicaria em deixar de pensar, em desistir de minha humanidade e insultar os deuses. Ora! Acusam-me os ímpios de blasfêmia, mas não hesitam em se insurgir contra a vontade divina, que a mim concedeu o desejo de buscar a verdade do ser e das coisas que estão além do que percebem.

Meletus
O sábio confunde como sua a vontade divina, e se enreda em sua própria teia. Nada do que diz demonstra sua inocência. O que dizem cidadãos de Atenas? Devemos continuar a tolerar esse blasfemador, inventor de seus próprios deuses?

Epistatês
Que este conselho delibere e declare o justo veredicto.

Dikasta 1
Culpado!
Dikasta 2
Culpado!
Dikasta 3
Culpado!

Todos em coro
Culpado

Arauto
Que fizeste sábio? Cavas-te a própria ruína! Tua sabedoria de nada valeu para salvar-te. Agora vão calar tua voz, pobre homem tolo.

Epistatês
Que os membros desta dikasteria deliberem agora sobre a pena a ser imputada ao acusado.

Sócrates
Se for para aplacar vossos espíritos, pagarei de bom grado a multa que me for infligida.

Arauto
Cala-te Sócrates! Já não conseguiste a tua ruína? Por que insiste em provocar a cólera daqueles que te condenam?

Dikasta 1
Ainda zombais desta Dikasteria? Que a morte cale vossa língua ferina.
Dikasta 2
Morte!
Dikasta 3
Morte!

Epistatês
Sócrates, filho de Sofrônico, escultor, e de Fenáreta, parteira. Foste considerado por esta dikasteria. Culpado das acusações formuladas por Meletus, Ânito e Licon. A pena deliberada para teu delito é a morte, a ser cumprida pela ingestão da cicuta, como determina a Lei, a ser cumprida após o retorno da nau que se encontra em Delos, em viagem votiva.

Escurece o palco.

Ilumina-se o palco. Sócrates está só com um discípulo.

Discípulo
Mestre, a nau com vosso fatídico destino se aproxima. É hora de sair-vos daqui, pois tudo já foi arranjado e o tempo urge.

Sócrates
Uma fuga, dizei-me vós? Não! Não fugirei ao que me aguarda.

Discípulo
Mas mestre…

Sócrates
Não vou dar a razão àqueles que me condenaram. Seria como corromper minha alma e atentar contra minha própria dignidade.

Discípulo
De que servirá tua morte, mestre? De que valerá a tua voz para sempre silenciada? Vinde comigo, mestre.

Sócrates
Justamente por essas questões não fugirei ao destino que me foi imposto, pois seria renegar minhas idéias. Elas permanecerão na mente dos homens como um farol na escuridão, e hão de levantar novas questões, cuja resposta os levará descobrir que, ainda assim, nada sabem, pois tolo será o homem que pensar que sua busca terminou.

Discípulo
E a tua vida, mestre? Tua vida nada vale?

Sócrates
Minha vida pertence aos deuses. É apenas uma das muitas vidas que tive e de outras que advirão. Que ela sirva aos homens que continuarão o árduo caminho de conhecer a si mesmo, a despeito do que dizem os insensatos.

A silhueta de uma nau grega é projetada ao fundo.

Discípulo
A nau de teu destino se aproxima. Imploro que reconsideres, mestre. Como ficarão aqueles que seguem teu pensamento?

Sócrates
Meus pensamentos apenas mostram o início de uma longa jornada. É de vós, agora, a prerrogativa de segui-la. Entrementes, meu espírito permanecerá entre vós, relembrando-vos eternamente das questões que não foram respondidas. Será meu legado e vossa maldição. Cuideis para que vossas indagações cheguem às gerações futuras, pois muito há para ser respondido ao homem, de si próprio.

Discípulo
Ouço os passos do carrasco, mestre. Teu destino está selado.

Entra o carrasco trazendo o veneno

Carrasco
É chegada a hora, sábio, de encontrardes com os deuses que tanto desdenhais.

Sócrates
Meu desdém é somente para os homens que se apropriam das palavras divinas. Os deuses estão acima dessas questões mesquinhas.

Carrasco
Seja como for, cumpra o teu destino.

Sócrates pega a terrina com a cicuta e a bebe serenamente.

Carrasco
Está feito.

Sócrates agoniza enquanto o palco escurece. O arauto entra em cena e bate o cajado

Arauto
Assim se cumpre o trágico destino do sábio. Cala-se sua voz para que suas convicções se mantenham na mente dos homens, como um espírito errante, eternamente a formular questões.

Link para baixar o arquivo:

Pensamento nítido e filosófico

pequeníssimo resumo

1 . Que tem e emite luz própria ou artificial; que brilha; brilhante, fulgente, reluzente: Havia muitas estrelas nítidas no céu.

2. Que se distingue bem; muito visível; claro, compreensível, inconfundível: Sua voz nítida era ouvida em todo o teatro.

3. Que é fácil de entender; coerente, simples, transparente: O médico, ao contrário da maioria, tinha uma letra bem nítida.

4. Que demonstra sinceridade, franqueza; aberto, franco, sincero.

Fonte usada:
http://michaelis.uol.com.br/busca?id=7mjpz ///
https://www.dicio.com.br/nitido/

Pensamento filosófico

pequeno resumo:

A filosofia é uma maneira de pensar e é também uma postura diante do mundo. Antes de mais nada, ela é uma forma de observar a realidade que procura pensar os acontecimentos além da sua aparência imediata.

Ela pode se voltar para qualquer objeto: pode pensar sobre a ciência, seus valores e seus métodos; pode pensar sobre a religião, a arte; o próprio homem, em sua vida cotidiana.

Como o próprio Bart Simpson, a filosofia é um jogo irreverente que parte do que existe, critica, coloca em dúvida, faz perguntas importunas, abre a porta das possibilidades, faz entrever outros mundos e outros modos de compreender a vida.

Fonte usada:
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/pensamento-filosofico-uma-maneira-de-pensar-o-mundo.htm